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O SERTÃO QUE VIROU MAR
Ari Donato migrou de Guanambi para Salvador em busca do sonho de ser jornalista
Calça jeans, camisa de botão e tênis brancos. É desse jeito que de segunda à sexta-feira, do alto de seus 54 anos de idade, Ari Donato jovialmente se apresenta à redação do Jornal A TARDE e da Ascom do Tribunal de Justiça da Bahia. Jornalista há 31 anos, “Arizinho”, como costuma ser carinhosamente chamado pelos colegas, não se arrepende de ter trocado, em 1972, a vida pacata de Guanambi, onde nasceu e se criou, pela correria da cidade grande.
“No início foi difícil, mas acabei me adaptando ao ritmo frenético daqui”, recorda. Dois anos após sua chegada a Salvador, período em que foi funcionário do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, na Rua Chile, mudou-se para a Residência Estudantil de Guanambi - que havia fundado junto com alguns conterrâneos -, onde viveu até 1978, data em que se tornou bacharel em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia.
Àquela época, Donato nem imaginava o efeito que a combinação entre metrópole, universidade e conjuntura política do país poderia lhe causar. E causou. Como que embebido pelos ideais contagiantes da contracultura, ele enveredou pela trilha dos movimentos estudantis, integrando a Comissão de Imprensa do Diretório Central dos Estudantes (DCE) - que criou e editou o jornal Viração - e atuando no movimento cultural de Guanambi, dirigido de Salvador, na fundação do Centro Estudantil de Guanambi.
O ingresso no universo jornalístico? Foi só uma questão de tempo. Começou como estagiário na Editoria de Esportes do A TARDE, sob o comando do jornalista Genésio Ramos. Daí em diante - e já como contratado do jornal -, Donato passou por inúmeras editorias, atuando como repórter, até assumir a chefia do Caderno Rural, a partir de 2003. Em paralelo, também construiu sua carreira como servidor do Tribunal de Justiça do Estado, tendo sido assessor de imprensa do Judiciário baiano na administração dos desembargadores Gérson Pereira dos Santos, Mário Albiani, Paulo Furtado e Ruy Trindade.
Em seu currículo, Ari só coleciona sucessos. Já entrevistou “reis”, a exemplo de Pelé, Roberto Carlos e Dominguinhos, e ganhou prêmios, como o recebido pelo conto vencedor de um concurso realizado pelas Óticas Ernesto, entre jornalistas, no Dia dos Pais, em 2001, e publicado em A TARDE, em forma de publicidade da ótica, para marcar a data. Mas, para ele, seus maiores troféus são sua mulher e dois filhos, frutos da relação que já dura mais de 28 anos.
Em entrevista comemorativa dos 20 anos da Facom, Ari Donato discute o futuro do jornalismo baiano, compara a Facom de “ontem” à de “hoje” e revela que, apesar dos hábitos adquiridos com a vida em uma metrópole, não abandonou a paixão pelas modas de viola nem por sua cidade natal. “É palavra, cabra”, jurou ele, com o sotaque carregado de quem não desgruda das raízes sertanejas.
>>> Qual o papel da Facom em sua formação como profissional?
Estudei de 1974 a 1978, quando a unidade tinha a denominação de Escola de Biblioteconomia e Comunicação (EBC). Veja que Biblioteconomia estava na frente. Do ponto de vista didático, para formação profissional, o ganho foi muito pouco. A escola pouco oferecia, tanto em termos de currículo quanto com professores. Eram poucos os que conseguiam juntar prática de redação, que era o que a maioria deles tinha, com didática.
>>> E como cidadão?
Posso dizer que ganhei mais no campo da ética. Fiz o curso em um período em que o Movimento Estudantil (ME) retomava suas atividades e, aí, as discussões no campo da ética e política foram muito importantes. Essas discussões, saindo para a prática que, acredito, eu exerça, sedimentaram meu comportamento como cidadão.
>>> Em sua opinião, o que mudou na formação dos graduados em jornalismo pela Facom de "ontem" em relação aos de "hoje"?
Creio que os novos professores e um currículo mais amplo, mas contemporâneo, puxaram a discussão sobre a comunicação como instrumento social e deram embasamento à sua prática, o que considero importante, pois um profissional deve saber o que está praticando. Sair da prática e ter noção teórica e discursiva do que seja a sua profissão, para se libertar de certas fórmulas que às vezes querem impor aos que estão começando na profissão. Para mim, jornalismo tem princípios, não fórmulas.
>>> O diploma da Facom ainda pesa na hora de conquistar um espaço no mercado de trabalho? Por quê?
Minha resposta é pessoal, não havendo nada de científico ou comprovado pelo mercado. Eu apenas confio na Facom, pelos professores que ensinam lá. Ainda faltam, para mim, às demais faculdades de jornalismo, professores à altura dos que há na Facom. Sei bem o que representa uma escola carente de bons professores, em razão de ter estudado na EBC quando a escola não tinha professores do nível de especialização que há, agora, na Federal. Por mais que se esforce, o aluno fica perdido. Falta corda, quando ele puxa...
>>> Qual sua impressão em relação aos cursos particulares de jornalismo?
Conheço bons jornalistas que saíram das outras escolas, alguns até trabalharam comigo, quando estagiários e depois, já com o curso concluído. A maioria deles, no entanto, com potencial graças mais aos seus próprios esforços do que ao avançado material didático e humano das escolas particulares.
>>> Qual a sua visão de mercado de trabalho na área jornalística nos dia de hoje?
Trabalho em um jornal há mais de 30 anos e não tenho, por isso, uma visão experimentada de como está lá fora. Mas, pelo volume de profissionais que sai das escolas e olhando para o espaço a ser ocupado, as perspectivas não são boas, em termos de vagas, além de os salários serem baixos. No geral, a situação é negativa, mas, particularizando, sempre alguém encontra boa colocação, boa vaga e segue em frente.
>>> Que tipo de predição você faria a respeito do cenário jornalístico baiano para os próximos anos?
Nós temos bons profissionais, em quantidade suficiente e boa parte sem trabalho, mas a quantidade de veículos de comunicação, em todas as esferas, impresso, rádio, televisão e outros, são em número reduzidíssimo. A Bahia tem 417 municípios, alguns com forte comércio regional, como Vitória da Conquista, Itabuna, Ilhéus, Barreiras, Porto Seguro, Juazeiro, mas em nenhum deles, embora alguns tenham escola de jornalismo, há uma imprensa forte do ponto de vista empregatício. É também amadora, atrasada e vive pendurada nos releases e notas oficiais e, agora, nas cópias de material da Internet. É uma lástima. Um ou outro jornal tem produção própria de matéria, mas sem uma relação empregatícia confiável, que assegure um mínimo de mercado para os profissionais.
>>> O jornalismo mudou muito durante seus 31 anos atuando na área?
Jornalismo como jornalismo, para mim, não mudou e não vejo em que mudar. Os meios, as formas, sim. Saíram das atas romanas e já estão na digitalização, devendo avançar mais com os tempos. Mas o jornalismo será o mesmo, sempre de forma a mostrar ao cidadão o que ele quer saber, da maneira mais isenta possível. Opinião em jornalismo é outra coisa.
>>> O que você ainda mantém de sua "história" e personalidade formada em Guanambi? O quanto do "interiorano" (despojado de qualquer sentido pejorativo) ainda existe após todos estes anos morando na metrópole?
Sou um sertanejo e muito me orgulho disso. Salvador me deu muita coisa, me ensinou muita coisa, mas não retirou de mim a alma sertaneja, mesmo porque Salvador é uma cidade-mãe, não impõe nada, mas assimila tudo que vem do interior do estado, pois foi assim desde os tempos da sua formação, quando para aqui vieram os africanos, por exemplo. É uma característica desta cidade, de absorver a cultura que vem ao encontro da sua, sem impor nada.
>>> Qual o seu maior orgulho como jornalista?
Vai ser uma resposta simples: meu maior orgulho é ouvir do meu pai e da minha mãe: “Meu filho é um jornalista”. Sei que esta conquista minha, saindo de uma cidade pequena, em 1972, representa muito para eles. E para culminar, minha filha, Mariana Donato, fez Jornalismo na Facom (2004) e meu filho, Rodrigo Donato, faz Comunicação, com Propaganda e Publicidade, na Jorge Amado. Minha profissão é um espelho para eles, dizem sempre.
REPORTAGEM: Gabriel Pondé